quinta-feira, 17 de maio de 2012

Páscoa e Cadeia de Suprimentos (Supply Chain)


Como diz o ditado, “quem é vivo sempre aparece”. Eu já estava com saudade de aparecer, mas não estava com saudade de aparecer triste. Tristeza é ruim.

No mês passado foi encerrado o tempo pascal, tempo em que grande parte das pessoas reflete sobre suas atitudes, suas conquistas, suas virtudes, seus defeitos; reflete sobre a busca por mudanças, tendo como exemplo a paixão de Cristo.

Nessa época ouve-se muito comentário sobre jejum, sobre penitência, sobre busca de Deus, sobre confissões, enfim, o assunto religioso centraliza as atenções.

Especificamente nesse ano, eu aproveitei a Páscoa simplesmente pra “admirar” um fracasso pessoal.
Olhando o exemplo de Jesus, na experiência de chegar até o fim quando se tem um propósito, eu pude redescobrir o quão mer$%@ eu sou...

Em julho de 2010, foi feita uma postagem com título de “Conquista”. Ela falava de um episódio que vivi com uma amiga, que eu achava que estava precisando de uma “ajudinha” pra mudar o rumo da vida, no qual estudamos juntos e ela conseguiu passar no concurso pra recenseador do IBGE.

No final da postagem estão as seguintes frases:

Parabéns pela conquista!

Agora ela já tentou, chegou lá, e sabe como voar.

O que eu mais espero agora, é que permaneça na montanha!

Pois é... Faltou acontecer o final. Faltou voar. E a montanha... 

Eu ainda custo a acreditar que minha amiga não compareceu na data correta pra se apresentar para a vaga, o que lhe causou uma desclassificação automática e o resultado foi lógico: ficou sem o trabalho.

O andamento dos acontecimentos que tinha me deixado tão bem ficou órfão de um final feliz.

Todas as conclusões e expectativas sobre boas coisas para o futuro se transformaram em um lamento, em uma situação apática.

Ficou no ar somente a pergunta: o que faltou ser feito?

A vida dela continuou até esse ano da mesma forma. Sem trabalhar, sem estudar, só “curtindo” a casa e o namoro.

No começo desse ano, tive a notícia que ela está grávida. Não era sonho dela que isso acontecesse no limiar de fazer 21 anos, sem ainda ter estruturado sua vida.

O mais legal é ver agora toda a família dela comentando aos cantos o papelão que ela cometeu. Os “profetas” comentando: “já sabia que iria dar nisso”. Impressionante ver que quando estamos diante de uma situação assim, parece que a gente ganha um poder de falar da pessoa. De olhar pra ela de uma forma diferente pra poder criticar, pra se mostrar “o conclusivo”, pra se colocar em outro patamar, enfiar o dedo na cara do outro e falar: burro!

Aparece tanta gente santa pra comentar nessas horas que você perde a conta. Parece que todo mundo que está criticando aquela situação casou virgem.

 Poder covarde!

Não acontecer com você não significa que você é melhor. Você corre os mesmos riscos. 

Poder covarde!

Mais covarde ainda é quem nunca ajudou a pessoa em nada, em nenhuma orientação, nunca fez um oração sequer e ainda quer falar alguma coisa...

O que faltou pra ela foi simplesmente uma carona de uma pessoa um pouco mais informada, que a levasse até o local de apresentação pra vaga e fizesse juntamente com ela a inscrição. Só isso!

Eu tinha o carro. Eu tinha condições de levá-la. Eu tinha um pouco mais de vivência que ela pra conseguir direcioná-la nas inscrições pra vaga.

E o que eu fiz? 

Achei que tinha chegado o final antes da hora certa. Perdi, por pura ignorância/burrice/apatia, a chance de ver o final correto!

Mais ainda: se tivesse de verdade como referência o tal Jesus - lá da Páscoa - eu ainda a levaria até o trabalho no primeiro dia (eu tinha condições pra isso) e batalharia com ela o tempo necessário até que “pegasse no tranco” pra tocar a vida da melhor forma. Não fiz...

Um pouquinho antes da Páscoa, eu fiz um curso em SP e fiquei hospedado no apartamento de um amigo - o Mandra -  por 3 dias. Em um desses dias o Mandra entrou no trabalho as 7h00 e chegou em casa por volta da meia-noite. Ele é engenheiro de produção e acredito que faz a gestão da cadeira de suprimentos (Supply Chain) em uma empresa, cuidando desde a compra/acompanhamento da matéria-prima dos fornecedores até a entrega de um produto final ao cliente.

Nesse dia específico, ele teve que “esticar o horário” simplesmente porque o caminhão que a transportadora enviou para levar o produto desenvolvido até o cliente estava em péssimas condições, então teve que permanecer (até tardaço1) na fábrica até conseguir arrumar o frete adequado para a entrega do produto, pois queria que o produto chegasse ao cliente no prazo correto. Pelo jeito, ele tem amor pelo que faz.

A tradução do que ele fez é a seguinte: ele disse pra uma fábrica inteira que ali tem um gestor preocupado com a realização final da produção de um produto, que é sua entrega com qualidade no cliente. Ele disse nesse ato que se preocupa com o trabalho de todo mundo envolvido no processo, pois tentou minimizar o risco de perda do produto ou de não entregá-lo no prazo para o cliente. Ele disse pra fábrica que é um investimento que vale a pena, porque não estava olhando pra lua com um diploma embaixo do braço na hora que precisaram de seu raciocínio pra tomada de decisão.

Pra mim, o Mandra deu um exemplo de vigilância do que é realmente final. Ele me disse implicitamente assim:

- Pinda, o final é a entrega no cliente. O final é que o produto tenha qualidade que atenda as expectativas dele. O final é mais à frente! 

Olhando pra Páscoa no exemplo de Jesus que chegou até a morte pra provar seu Amor por nós, e olhando para o “episódio pontual do Mandra” eu só posso concluir que ainda tenho muito a aprender. Vivi uma situação que só teve a falta da “entrega no cliente” (do que não é um produto). Faltou a última disposição, faltou provar o Amor. Faltou...

Resta torcer para que Deus possa ajudar minha amiga a criar uma criança da melhor forma possível e quem sabe através dela, Ele possa revelar um novo fim, talvez até melhor do que se esperava, já que é impossível dominar os acontecimentos da vida. Que essa criança venha com sensacional saúde, meu Deus!

Eu vou aguardar com fé e torcida, tentando ficar pronto pra uma nova oportunidade que com certeza virá, e dessa vez acredito que o “Cara lá de cima” vai Mandramente2 me conduzir e dizer:

- Pinda, o final é mais à frente!

Ao Coração Padre Fábio de Melo
Deus me entregou bem mais do que mereço
talvez seja por isso
que eu me cobre um pouco mais
não que eu não seja capaz
mas, às vezes é difícil

nem sempre sei fazer o bem que eu desejo
e, às vezes, eu me vejo
me enganando sempre mais
não que eu não queira acertar
mas nem sempre é possível

já me condeno tanto
pelos erros que na vida cometi
pelas vezes que eu não soube decidir
e assim, meu coração gritava
desespero de quem ama
coração, tu que estás dentro em meu peito
me condenas desse jeito
e eu não sei por qual motivo
se és divina voz em mim
só te peço, por favor, eu sou humano
não me condenes assim

humano eu sou assim: virtudes e limites
se agora me permites
eu pretendo ser feliz
sem prender-me ao que não fiz
mas olhando o que é possível

a dor que, às vezes, vem
me faz feliz também
pois ela me recorda
o valor que tem a cruz
quando a noite esconde a luz
Deus acende as estrelas

1- Até muito tarde em kbhitianês.

2- Advérbio de modo, Mandra. Modo “Mandra” de falar ou comentar. Ex: Mandramente falando, acho um absurdo um time como o Corinthians ainda não ter ganhado uma Libertadores da América.

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